Não sei o que as pessoas tanto fazem se gastando por aí. E isso é sério - como pouca em mim é.
Ou sou eu meio inevitável, meio cretina, meio viciada; eu que nunca sei a hora certa, não uso relógio, não tenho limites, não sou pontual; eu que ando em falta com os outros por pura falta de vergonha, ou de intimidade - essa também se perde com o tempo; eu bebendo café e fumando porque a hora se arrasta e não vou ver Zorra Total; eu com saudades, sem maldade; eu sem palavras e com frases desconexas e sem efeito moral - a minha moral foi comprar cigarros e não apareceu até hoje, nem no Linha Direta; eu sem pijama, que não durmo sozinha na cama e sozinha em casa escura - prefiro; eu sem tesão por festinhas, sem entusiasmos pra blocos e passeatas, disposta em casa e do avesso; eu que sento torta na cadeira, que reajo conforme a música e ando tropeçando pela rua; eu que bebo até cair - de sono -, que fumo até ficar sem ar; eu que não ligo pra convenções, regras e imposições; eu que não sei de tramas, perdi os tremas e não li Saussure. Eu que, quando quero, não tenho; quando posso, descarto e deixo tanto pra depois; eu que discuto bagatelas e reclamo mediocridades; eu que fujo de gente, sou ignorante quando quero e super geniosa. Eu que sou educada, que respeito e não piso em cima e faço o que posso; eu que quero demais, o que não tenho, o que não posso e quem não posso. Eu que não ligo no dia seguinte, que não sei dizer "não", que não sirvo contra a parede; eu que acredito em mentiras, tenho princípios e me falta impulso. Eu que rolei minha playlist, que escangalhei meu som, que queimei meus teclados. Eu que tenho tendência à autodestruição, que não sei manter laços e não gosto de magoar ninguém. Eu que sou irresponsável, imatura, maluca e rebelde sem causa; eu com óculos de sol e fones de ouvido porque não me gasto com o feio. Eu que só respondo chamada, só falo se solicitada e odeio me abrir. Eu que me dou aos poucos - não visível aos olhos de outros. grandes pedaços aos meus -, que observo detalhes e passeio. Eu que ainda tenho pressa, ainda sorrio e acho graça no menos; eu que sou paciente, de cara lavada e inconsequente; eu que não sou misteriosa, mas não faço por onde pra ser entendida, não sou divertida, mas dou os meus pulos.
Pulo linha.
Eu que escrevo pra mim e é necessidade; eu que me dou quando quero e o faço de graça - mas por merecimento -; eu entrelinhas, nessas linhas sempre minhas.
Eu, num sábado à noite, sem nada em mente e bebendo só café. Eu que faço pose de séria, mas sou uma bela piada.
Eu que escrevo e assino - sempre. Eu que não minto. Eu que não prendo. Eu que me abro e me fecho, rapidamente.
Eu que colocarei algo suave e que soe bem aos meus ouvidos.
Eu que leio e-mails fumando e corrijo textos bebendo café. Eu que sou viciada em jogo de cartas, em filmes de drama, em música clássica que reverbera por toda casa e assanha as minhas células mais tímidas. Eu que não me convenço, não me nomeio e não ligo tanto para o que pensam. Eu que ainda escrevo cartas, que cumpro promessas, que inauguro reinos e dou valor a alguém; eu que não chamo a atenção, que não chamo pessoas, que respiro solidão - até acompanhada. Eu que não acredito em destino e odeio coincidências. Eu que sou capricorniana e meto medo em algumas pessoas, que sou pragmática, vidente, adivinha, metódica e cheia de manias. Eu que não sirvo pra casar, mas sei fazer café, até cozinho. Eu que funciono sozinha, mas gosto de companhia - gosto em silêncio. não sei me abrir. Eu que bloqueio, não gosto de coisas supérfluas, vernáculo desgastado, palavras vagas e vãs onde sentimos a ausência da alma na frase. Eu que não preciso de declarações de amor, mas admiro-as. Eu que quero tudo do meu jeito, discordo do mundo e tô sempre certa.
Eu que tô sozinha em casa, num sábado à noite, abrindo a alma.
(Acendo um cigarro. Porque nada que é suficiente me basta.)
Eu que leio livros que ninguém gosta, ouço coisas incompreensíveis, brinco com a palavra - eu acima dela - e acho o Português uma graça, mas odeio regras. Eu que amo porque sim, que quero por querer e meço tudo meticulosamente. Eu que também me decepciono, também desabo e sinto falta; eu que erro muito e me magoo; eu que não sei do clichê; eu que sinto muito - e é muito mesmo. Eu que desafio, que duvido, que pago pra ver! Eu que fujo, descarto canastra, desfaço meu jogo e seguro cartas. Eu que tenho cartas na manga.
Eu que sou tapada, mas não completamente ignorante. Que gosto do meu cabelo dia sim, dia não; que quero estapear o mundo de quando em vez ou acho tudo uma graça. Eu que reclamo, grito, sacudo e deixo passar...
Eu que fico, que fujo, que permaneço - porque verbos de ligação me fodem a cabeça.
Eu que faço miséria, não gosto de guerra e também quero a paz mundial.
Eu que não aprendo, que não ouço e minha teimosia é colossal. Eu que sou megalomaníaca, provinciana, arquetípica, desequilibrada, não convencional.
Sou eu em tons sóbrios ou chamativos, falando pouco e sendo educada. Caduca, velha, briguenta e fujona.
Sou eu que estou com saudades de você. E escrevo, descabelada, qualquer coisa sem nexo que combine com isso. Sou eu com pijama de bichinhos e fazendo caretas. E ficando sem graça... E ficando de graça. Sou eu sem cor e sem coro, sem voz e sem fala brigando com o teclado; eu meio esquizo, esquista, desastrada; eu que limpo os óculos a cada minuto, eu nostálgica e saudosista. Eu meio inversa e de cabeça pra baixo; eu sem começo, sem fim e com estrada noturna. Eu sem medo de leão e contando histórias e inventando outras e falando dos outros e escrevendo cotidianos nada extraordinários. Eu sem cabeça, sem presente de Natal, sem chocolates na Páscoa; eu nada carnavalesca; eu que já fui meio promíscua e não omito, que não me entendo, mas me explico - sempre. Que não desligo primeiro, que tenho minhas vergonhas. Eu em meus mais variados humores - sem ser bipolar -, onde todos gostam de você.
E ouço Beethoven – Love Story. Porque acredito e quero pra já!