acordei pensativa e saudosista.
sim, se eu - por desventura do acaso - arrumar crianças, poderia contar que já fui de tudo na vida.
posso dizer, por exemplo, que já fui esportista. era o que chamaria de criança olímpica: adorava uns jogos, e todos os esportes. hoje, sobraram só as mazelas: pulso aberto (chato de localizar e bem doloroso), rótula deslocada, nervos do pé "quebrados" e alguns ossos e articulações que doem com o frio - como o que faz hoje. algumas lembranças boas e cobranças nem tão boas assim. "o esporte não dá dinheiro, você sempre chega quebrada em casa! deve gostar, só pode..." - pois bem, eu curtia. era sádica desde nova.
é, ainda conservo um espírito torcedor, fanatismo talvez.
também já fui dada ao desenho. o que é tão mal visto quanto. afinal, não tinha matéria copiada no caderno, só uma imaginação fértil em três dimensões. "você pretende estudar como? vai fazer um desenho na prova!?!?". tenho alguns papéis rabiscados ainda, bem guardados. e meus amigos eram o lápis e a borracha. nos dávamos bem até; vezenquando conversamos, agora e cada vez menos. talvez eles se irritem por eu ter rompido nosso laço. e ainda tenho a mania de rabiscar garranchos no papel... desenhar o que não vejo é sempre mais interessante.
bom, preferência por desenho animado se explica aí.
e veio a música, essa durou bem pouco. não é interessante ouvir barulhos de instrumentos em horas impróprias. aquela coisa: te dou, mas não precisa usar. e depois de certo tempo obedeci, ou acostumei, não lembro...
e ficou o costume das notas imaginárias e das viagens nas melodias. Beethoven sempre me leva pra longe. alguns gostos exóticos por óperas subversivas e intensas, macabras e que ofendem. companheiras apesar de tudo.
e veio a pintura. pinceladas estranhas com um quê de medo e agressão. "é coisa da idade, passa." - pois bem, passou. mas ainda me interesso pela arte e por tudo que diz respeito... gosto das formas e das cores - apesar dos pesares... bom, nem tudo que fica é bom.
depois veio a paixão pela leitura. "é cada vez mais impressionante o modo como essa menina se exclui da vida. sem amigos e só vive jogada pelos cantos - às traças - com um livro na mão, ou pendurada em uma janela..." - ok, ler pelo menos é mais produtivo que as outras coisas. mas nunca dá dinheiro o suficiente (nem coisa alguma que eu fizesse), apesar de dar alguma cultura.
e passar mais de oito horas em uma livraria não é convincente (verdades nunca são). eu teria que ler livros didáticos.
e ficou a mania de ler andando pela rua, fumando, comendo, bebendo, em aulas... e certos sonhos meio bizarros.
aí vem um "quero ser professora!" - já fui subversiva e cheia de vontades. dar aulas por aqui, acolá e vamos nessa. é algo muito bacana, mas não é bom o suficiente (não se ganha dinheiro dando aulas. fato!). e essa foi mais uma crise excêntrica da menina-mimada-rebelde-sem-causa. "ao invés de estudar pra ser alguém, você perde tempo ensinando. não sei o que, já que você não estuda para aprender.". menos uma mania feia nessa lista. parei de dar aulas e agora querem que eu volte. estranho isso...
e fica a intromissão de explicar tudo que pedem, aquela coisa quase didática, quase teórica, quase humana. e sempre perguntam para mim... hoje em dia, as coisas correm, ninguém tem paciência para isso mais.
e a mania de escrever... essa necessidade ainda me persegue.
é, já fui muita coisa nessa vida. hoje não sou. acho que de tanto ser, a gente acaba sendo coisa alguma. é o "happy ending" da história, precisa ser feliz? creio que não.
de fato, hoje não sou. ou melhor, sou só o que não presta, não serve, não cabe. hábitos errados não terminam... acho que, se eu tivesse sido qualquer coisa acima, seria maravilhoso, comparado ao que sou agora. mas os sonhos dos outros pesam, as cobranças e a verdade deles sempre é maior que a minha "realidade".
. Ouvindo: Fuel - Shimmer (Acoustic).
"Isso está muito longe de mim para eu abraçar
Muito longe…
Acho que eu vou deixar ir embora"
- me lembra alguém.
p.s.: escrever em teclado virtual nem é mára.
Ser vi
Há 3 meses
mas os sonhos dos outros pesam, as cobranças e a verdade deles sempre é maior que a minha "realidade".
ResponderExcluirSe eu disser "caralho, eu te entendo" vai soar cafona e medíocre ? Eu não consigo fazer comentários decentes ao que você escreve porque sempre caio dentro das suas palavras, como luvas, ou camisinhas, sei lá.
É estranho, Sub, mas eu gosto.
"é, já fui muita coisa nessa vida. hoje não sou. acho que de tanto ser, a gente acaba sendo coisa alguma."
ResponderExcluirTe parafraseando ficaria mais ou menos assim: "é, já fui muita coisa nessa vida. hoje não sou. acho que de tanto QUERER SER, a gente acaba sendo coisa alguma." Isso sou eu, sempre.
Ouvindo Fuel - Shimmer (Acoustic)