Final de semana e dia das mães. Pus-me a viajar. Viajar mais, pois, sem pátria que sou, não acho um ponto que me sirva de direção. Bússola sem norte. E de que me serviria um norte? Tenho o resto dos pontos cardinais.
Tempo frio de edredom, chuva rasa para filme, encontro distante, lugar paradisíaco. Não me falta o romantismo, mas falta a minha família nesse quadro. Família equilibrada que somos, temos princípios e valores demais. Opostos, porque nem tudo é perfeito, mas algum apego sentimental nos une.
Dia de chegada, céu inenarrável, me perdi constantemente nele – cheguei a conclusão de que preciso aumentar o grau do óculos. E o mar era um espetáculo à parte. Grave e calmo.
Romantismo também ao ser acordada. Gritos, falações, vassouras passando com pressa pelo quarto e carregando meu sono, ou luzes acendendo.
Não posso reclamar, num belo sábado rolou um evento para quebrar a paz do paraíso. Crianças pelo chão, pessoas espalhadas em mesas, eu com o copo na mão – bebia cerveja, e por que não? -. Música boa, desconhecida. Forró da terceira idade – descobri o nome -, tão boa que não fez os festejantes movimentarem um músculo facial. Apenas para fofocarem e falarem mal dos outros nas mesas ao lado, e de mim, parada no bar. E as crianças jogavam estalinhos. Juntei-me a elas, porque também sou criança. Risos falsos, palavras tortas e erradas, fui para a chuva. O lado de fora era, de longe, mais interessante, porém ficava longe do bar. Nada é perfeito. Choveu e fiquei lá fora. – O que ‘cê ‘tá fazendo aí, sozinha, na chuva? – perguntavam. – Aproveitando a festa. – porque estava sóbria demais para sorrir.
Festa acabada, alguns pobres diabos foram expulsos, afinal os donos precisavam dormir – eu fui expulsa também. Então o que resta é a casa, com toda a família e o cachorro e o baralho e o café.
Buraco! Buracos. De todos os tipos. Pelo chão e nos jogos de azar. Azar que foi só meu, perdi todas as vezes. – Nem sempre se ganha, filha. – minha tia resolveu atacar de psicóloga. – E eu achando que nem sempre se perdia... errei mais uma vez – porque “perder” requer prática. Perdi a dignidade no buraco fechado e quase perdi o pé no buraco aberto – porque a chuva reabriu todos os buracos da rua e a gravidade me atrai ao centro e ao fundo.
Conversas, fofocas e recordando bons momentos de toda a trupe junta. Discussões, porque também falamos mal dos outros, e como falamos. Sentimentalismo e qualquer “quebra pau”, para me lembrar que uma família desequilibrada pode sim ser surpreendente, mas sempre honrará suas raízes.
Promessa minha, tão difícil de cumprir... Mas era preciso prometer algo. Diálogos, conselhos e aulas práticas. Minhas teorias furadas não convencem mais ninguém. Mas é sempre bom aprender, o que quer que seja.
Retrato bonito. De uma família intensa, insana e impetuosa. Tramas e desenrolos de romances, daqueles bem dramáticos, almodovianos.
Mães felizes, porque sentiam saudades. Filhos felizes porque tinham motivo para sentir também. E não foi tão ruim assim. Pelo menos me fez sentir saudade – ou algo próximo a isso – de casa. Porque soube que ainda tenho uma. Aprendi tanto... Que nem sei mais. Nem poderia, ou saberia, explicar.
Exceto pela chuva, frio, gripe... Mas isso é outra história.
De volta à sociedade, realidade, necessidade. Inerentes a todo ser humano. De volta ao que sou, ou poderia ser. De volta a mim.
Voltar de onde e para quê? Para quem – audácia minha perguntar.? Passa o tempo, passa a volta, a ida, a estada. E como salvar o que ainda não se perdeu? Como tentar segurar o que escorre pelos dedos? Puxo, empurro, peço para ficar? “Deixa que tudo se ajeita” diz a voz da sabedoria. Mas não quero essa disposição “ajeitada”, essa coisa brasileira de deixar o tempo curar. Não quero cura, não quero tempo. Quero agora! E não faz diferença, mas não é mesmo para fazer. Nem tudo precisa significar algo, nem tudo precisa ser só o que está escrito.
“Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo..
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.”
(Fernando Pessoa)
Hum... Nosso dia das mães foi Mára, como diz nosso filosofo Ladir!
ResponderExcluirPrima, realmente isso tudo que foi escrito, foi realmente fato! Legalzinho, pelo menos não tivemos espetáculos de sua tia, minha amada mãezinha, um poto positivo. A proposito; O buraco, eu jogo sacana! Ganhei todoas, eu que nunca ganhei uma entre família! Isso é para todos saberem, que jogo de buraco parece até o "jogo da vida" Todos nós, nem sempre ganhamos ou perdemos, mas aprendemos cada dia um "poquito", pelo menos eu!
Querida, muito tempo que não escrevo para você, mas hoje me deu vontade, acabei de fumar um cigarro e você está na varandinha escrevendo não sei o quê, nem sei para quem, se for para alguém, né?!E como te conheço pelo menos um pouco, não é para ninguém! Eu te amo muito, isso é muito sentimental, mas você sabe muito bem que sou seu contrário.
"Eu te amo, nos dias infernais
e, na vida sem tempo"
Beijos e Fique bem!
Belo escrito!
Ps: Como não tenho conta, nem nada postei com seu nomezinho mesmo; Subversiva!
Ass: Suelen Gomes Fonseca.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirIn)feliz de quem tem uma família (des)equilibrada.
ResponderExcluirEu acordei ambígua hj. Não se assuste se tu não entender, nem eu me entendo...
Tirana
P.S.: Antes q tu enlouqueça pensando quem deletou o outro coment, fui eu. Tive q arrumar um espaço q tinha ficado.
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