sexta-feira, 30 de maio de 2008

Da janela...

pela janela vemos tudo e o mundo. inclusive, é pela janela que a vizinha se assusta com a minha cara de louca - não a culpo. uma menina escabelada, fumando, com um copo na mão - é café! sempre ele. -, um caderno, uma caneta, um casaco bem grande e que faz caretas aleatoriamente. assim, sem mais ou menos. assim, sozinha mesmo - como sempre foi e será. É preciso aceitar o destino, as imposições, as falácias e o que seja. É preciso acordar com um cara razoável e guardar as caretas para si e para a solidão - embora ela não mereça, é boa companheira.

passado o mês, percebi a minha facilidade - e afinidade - com o nomadismo. me sou em qualquer lugar e agrego, rapidamente, o sentimento de permanência sem pertencimento. diria até que não sou, não na totalidade da oração; diria que permaneço. não sou, só permaneço. que graça!

permaneci, é fato, mas agora a realidade chama, os compromissos, a tal da responsabilidade - coisinha desagradável! e tenho trocentos problemas para resolver. os mesmos que eu criei. tanto quanto bem quis criar. criar problemas fazer promessas, pagar dívidas, pensar no impossível. - a caneta quis escrever "querer", mas voltei a dominá-la. e ela sabe que não quero mais coisa qualquer. ela sabe... muitos assuntos ainda ficam entre mim e ela. - é bom, passa o tempo. nos faz pensar de outro modo, noutra dimensão. e viva Platão!

mas depois, acorda-se sozinho, lidando com o real. já me disseram que meus problemas se dão por mim, porque penso - estou errada, claro.
e a família lida com tanta excentricidade dizendo: "pois ela é inteligente, sabe se virar. tem alma e perturbações dum poeta!". Acho digno!
porque torna toda a loucura admirável, admissível e poética. embora cobranças existam, claro, mas numa família toda problemática, eu sou a que dará certo, o motivo de alguns orgulhos - e muitos sermões. a que tem o destino linear, simples, sem impedimentos e infinito, sem limites; aquela que, quando sóbria, é boa parente, boa no jogo, fria e racional no amor; a dos bons conselhos, dos planos e da teoria; a que vai corrigir provas, fazer planos de aula, trabalhos e projetos alheios (não é sempre imprestável) - porque quando ébria, discutirá, dará opiniões subversivas, rirá, perderá a compostura e se abrirá de vez, jogando tudo em cima dos outros; ou se fechará completamente -; aquela que guarda o que escreve e passa madrugadas conversando trivialidades com uns, filosofia com outros e se abrindo com poucos (a com os hábitos estranhos, noturnos, taciturnos); aquela que não toma atitudes e planeja tudo, com cálculos matemáticos e equações de terceiro grau; aquela que gosta de escrever e é subjetiva e vaga (alguns diriam vagaba); aquela que pára o mundo e vai observá-lo. a estranha interessante e com um futuro exemplar.

opiniões superficiais. afinal, todos olham da janela. e me conhecem pela metade, por não conhecer, porque eu imponho mais medo que o impossível (e não gosto disso). é, digo que cansei de estar nas vitrines. até brinquedos escangalhados como eu merecem um lar, uma companhia. e isso me lembra uma estória que minha mãe me contava... saudades dela e de mim.
pois o tal brinquedo saiu da vitrine. cansou de esperar, pateticamente, pelo improvável. cansou de fazer graça sem a ter. e o que está com defeito tem que ser tirado de circulação. pedem sem pedir, e obedecerei sem demonstrar aflição.
e volto ao que aguarda e guarda. sem salvações para mim, passarei a cometer o mesmo novamente - e por vezes seguidas - pra me tornar o que não sou.

Guilhotina para o coração! Porque eu mereço! e tenho que cumprir meu papel. ao invés de assustar transeuntes desavisados e passar com o vento. ok! eu me responsabilizo.
e eu não nasci pra ser vivida, ou titular; mas para ser vista pela janela, pela vitrine. qualquer vidro ou distância que passe segurança.
é, nem todas as histórias terminam com um “felizes para sempre”.


(Ouvindo: Los Hermanos - Último Romance. é uma letra bacana.)

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